O bote dura menos de um segundo. Em um intervalo de até 200 milissegundos, uma cobra peçonhenta pode perfurar a pele e injetar o veneno. Em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, os acidentes com serpentes fazem parte da rotina dos serviços de saúde e colocam o município entre os que registram mais ocorrências desse tipo na Bahia.
Somente até 5 de agosto deste ano, o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), referência nesse atendimento, registrou 33 acidentes envolvendo serpentes. Desse total, 28 foram causados por jararacas e cinco por cascavéis.
Em todo o estado, Feira de Santana aparece entre os municípios com maior número de registros de acidentes com serpentes, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Entre 2021 e 2026, o município acumulou 5.567 notificações.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/S/u/GTC441RWGh6jovTXA3cQ/jiboia-predando-um-passarinho-...-2-.jpg)
Feira de Santana está entre os municípios da Bahia com mais registros de picadas de cobra — Foto: Reprodução/Carlos Tuyama
No HGCA, a maior parte dos pacientes atendidos foi picada por jararacas. Segundo a coordenadora do Núcleo Hospitalar de Epidemiologia da unidade, Karina Cerqueira, os sintomas podem variar de acordo com a espécie, mas exigem atendimento imediato.
“A jararaca normalmente provoca um edema, que é um inchaço no membro atingido, além de vermelhidão. Também pode evoluir para hemorragias, alterações na coagulação do sangue e, em casos mais graves, causar problemas renais”, explicou em entrevista à TV Subaé.
Em 2025, o hospital registrou 59 atendimentos relacionados a acidentes com serpentes. Foram 18 acidentes botrópicos (jararacas), 11 crotálicos (cascavéis), três elapídicos (corais verdadeiras), um envolvendo serpente não peçonhenta e 26 em que a espécie não foi identificada.
Já em 2026, até o início de agosto, todos os casos atendidos envolveram apenas jararacas e cascavéis.
Mudanças ambientais aproximam serpentes das áreas urbanas
No Laboratório de Animais Peçonhentos da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), pesquisadores estudam as espécies encontradas na região para auxiliar na prevenção e no tratamento dos acidentes.
A coordenadora do laboratório, Ilka Bionde, explica que a expansão urbana e o desmatamento têm alterado o habitat das serpentes, aumentando a presença desses animais próximos às residências.
Segundo ela, embora as jararacas e as falsas jararacas sejam comuns na região, as corais verdadeiras representam maior risco devido ao tipo de veneno. Já as cascavéis, antes restritas a áreas mais afastadas, passaram a ser encontradas em locais cada vez mais próximos da cidade.
“Com a degradação ambiental, o desmatamento e a ocupação dessas áreas, elas estão aparecendo em regiões onde antes não eram vistas”, afirmou.
“Perdi a visão e a voz por um tempo”
O comerciante Wilson Pereira Santos, de 68 anos, sabe exatamente como um acidente desse tipo pode mudar a rotina em poucos segundos.
Ele foi picado por uma cascavel enquanto caminhava pela propriedade onde cria animais.
“Eu fui soltar os animais e, quando voltei, passei perto de um pé de manga. Não vi a cobra. Só senti a fisgada. Quando olhei, vi que era uma cascavel. Foi muito rápido”, relatou.
Wilson conta que logo após a picada começou a apresentar sintomas. “Perdi a visão e a voz por um tempo. Fui socorrido rapidamente, fiquei cinco dias internado e, graças a Deus, saí sem sequelas”.
O que fazer em caso de picada
Especialistas alertam que o atendimento rápido faz toda a diferença no tratamento. Também reforçam que procedimentos caseiros podem agravar o quadro.
Em caso de acidente, a orientação é:
- manter a vítima calma e afastá-la da serpente;
- retirar anéis, pulseiras, sapatos ou objetos que possam apertar o membro atingido;
- lavar o local apenas com água e sabão, se possível;
- manter o membro elevado;
- oferecer água à vítima;
- procurar atendimento médico imediatamente;
- se houver segurança, fotografar a serpente para ajudar na identificação.
Os especialistas também orientam que a vítima não deve fazer torniquete, cortar, furar ou tentar sugar o local da picada, nem aplicar substâncias caseiras.
Casos graves e mortes
Dados do Sinan mostram que, entre 2020 e 2026, Feira de Santana registrou 13 acidentes classificados como graves. No período, foram contabilizados quatro óbitos — dois em 2020 e dois em 2024. Não houve mortes registradas em 2021, 2022, 2023, 2025 e no primeiro semestre de 2026.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, foram notificadas 23 ocorrências em todo o ano de 2025 e seis entre janeiro e julho deste ano. A pasta ressalta que os números do HGCA costumam ser maiores porque a unidade recebe pacientes de Feira de Santana e de diversos municípios da região.
Embora façam parte do equilíbrio ambiental e normalmente ataquem apenas quando se sentem ameaçadas, as serpentes exigem atenção. Em caso de acidente, o tratamento adequado e o atendimento médico imediato são as medidas que mais aumentam as chances de recuperação e reduzem o risco de complicações.
Fonte: g1 Bahia



