Os acidentes nas rodovias brasileiras têm revelado um cenário cada vez mais associado às condições físicas e emocionais dos próprios motoristas. Levantamento da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), com base em registros da Polícia Rodoviária Federal (PRF), aponta que 28% dos 4.339.762 sinistros registrados entre 2014 e 2024 tiveram relação direta com transtornos de saúde dos condutores. O percentual representa mais de 1,2 milhão de ocorrências em estradas federais do país.
Na Bahia, o debate ganha ainda mais relevância diante da aproximação dos festejos juninos, quando milhares de veículos devem circular pelas rodovias em direção ao interior do estado. A expectativa das autoridades é reforçar a fiscalização e ampliar as ações educativas para tentar reduzir um problema que continua fazendo vítimas diariamente nas estradas baianas. Operações recentes da PRF durante os últimos feriados de Tiradentes e Dia do Trabalhador registraram aumento de infrações ligadas ao excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas e fadiga ao volante.
De acordo com a Abramet, outros 49% dos acidentes registrados nas rodovias brasileiras estão ligados ao chamado “fator humano”, classificação usada pela PRF para situações provocadas por imprudência, desatenção e comportamento inadequado dos motoristas. Foram mais de 2,1 milhões de ocorrências relacionadas diretamente às atitudes dos condutores.
O diretor científico da Abramet, Alysson Coimbra, afirmou que os dados mostram que a saúde do motorista passou a ocupar papel central nas estatísticas de trânsito do país. “Os transtornos de saúde física e mental interferem diretamente na capacidade de atenção, reação e tomada de decisão do condutor. Sono, fadiga, uso de substâncias e questões emocionais aumentam significativamente o risco de acidentes”, alertou.
Segundo a entidade, os números reforçam que os acidentes não podem mais ser tratados apenas como resultado de problemas estruturais nas rodovias. “Hoje, o comportamento humano e as condições clínicas dos motoristas representam quase 80% das causas dos sinistros registrados nas estradas federais”, destacou a Abramet em nota técnica divulgada após o levantamento nacional.
Na Bahia, policiais rodoviários federais vêm reforçando o alerta para o risco provocado pela mistura entre cansaço, pressa e imprudência. Em uma das operações recentes realizadas nas rodovias federais do estado, a PRF chamou atenção para o fato de que muitos motoristas seguem dirigindo mesmo após horas seguidas ao volante.
“Grande parte dos acidentes graves registrados nas rodovias poderia ser evitada com atitudes simples, como respeitar os limites de velocidade, evitar ultrapassagens indevidas e realizar pausas para descanso”, destacou a PRF em balanço divulgado durante a Operação Tiradentes nas estradas baianas.
A corporação também ressaltou que o excesso de velocidade segue como uma das infrações mais recorrentes nas BRs que cortam a Bahia, especialmente na BR-324, BR-116 e BR-101, trechos que concentram intenso movimento de cargas e passageiros.
“Infelizmente ainda encontramos muitos condutores desconsiderando regras básicas de segurança. O resultado disso são colisões graves, mortes e famílias destruídas”, afirmou a PRF em outra manifestação divulgada durante fiscalizações realizadas no feriado do Dia do Trabalhador.
Os dados da Abramet apontam ainda que fatores estruturais possuem peso bem menor nas estatísticas nacionais. Problemas na via representam cerca de 8% dos acidentes registrados no período analisado. Já falhas mecânicas correspondem a aproximadamente 7%, enquanto fatores ambientais, como chuva e neblina, somam 4%.
Para especialistas em medicina do tráfego, o cenário exige maior atenção à saúde física e mental dos motoristas profissionais e também dos condutores ocasionais. A entidade defende campanhas permanentes de conscientização sobre qualidade do sono, saúde emocional e direção responsável.
Fonte: Tribuna da Bahia



