Apesar dos avanços em termos de diagnóstico e tratamento, a tuberculose continua sendo uma das doenças infecciosas mais letais do mundo, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com o Relatório Global sobre Tuberculose 2025, publicado na última quarta-feira (12) pela entidade internacional, mais de 1,2 milhão de mortes pela doença foram registradas no último ano, patologia que afeta cerca de 10,7 milhões de pessoas no mundo.
O levantamento da OMS destaca que, apesar do progresso mensurável em diagnóstico, tratamento e inovação, desafios persistentes em financiamento e acesso equitativo à atenção ameaçam reverter as conquistas arduamente obtidas na luta global contra a tuberculose. Segundo Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da entidade internacional, o fato de a doença “continuar acabando com mais de um milhão de vidas todos os anos, apesar de ser uma doença prevenível e curável, é simplesmente inaceitável”.
Dados do Ministério da Saúde revelam que, no país, em 2024, foram contabilizados 78 mil novos casos de tuberculose e cerca de 4,5 mil óbitos. Na Bahia, segundo a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) o número de novos casos confirmados de tuberculose, de residentes no estado, tem aumentado nos últimos quatro anos.
Em 2021, 2022, 2023 e 2024, foram contabilizados 4.504, 4.943, 5.052 e 5.193 novos casos da doença, respectivamente. Ainda conforme a pasta estadual, este ano, entre 1º de janeiro e a última segunda-feira (17), já são 3.961 casos novos da doença, com 544 internações e 354 mortes pela doença na Bahia.
Como destaca a pneumologista Fernanda Aguiar, apesar de ser uma doença antiga, a tuberculose continua a ser um importante desafio de saúde pública. “Nos últimos anos, alcançamos avanços científicos no seu tratamento, mas também persistem grandes obstáculos para a sua erradicação completa”, afirma.
A especialista elenca desafios, como as desigualdades sociais e econômicas que afetam o acesso à saúde, destacando fatores como imunossupressão, desnutrição e doenças crônicas, que influenciam diretamente a distribuição e o controle da doença. “Pessoas com HIV, populações privadas de liberdade, populações de rua e indígenas fazem parte do grupo de maior risco de adoecimento”, pontua a coordenadora da Pneumologia do Hospital Mater Dei Salvador.
Sintomas e tratamentos
Doença infecciosa e transmissível, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch, a tuberculose afeta prioritariamente os pulmões (forma pulmonar), embora possa acometer outros órgãos e/ou sistemas. Como informa o Ministério da Saúde, dentre os sintomas da patologia, o mais comum é a tosse por três semanas ou mais, além da febre vespertina, sudorese noturna e emagrecimento inexplicado.
“Caso a pessoa apresente sintomas de tuberculose, é fundamental procurar a unidade de saúde mais próxima da residência para avaliação e realização de exames. Se o resultado for positivo para tuberculose, deve-se iniciar o tratamento o mais rápido possível e segui-lo até o final”, recomenda a pasta federal.
Ainda segundo a pneumologista Fernanda Aguiar, os sintomas da tuberculose pulmonar costumam ser graduais e inespecíficos no início, o que pode atrasar a busca por ajuda médica. Além dos sintomas citados anteriormente, a médica aponta a ocorrência de fadiga e mal-estar (cansaço excessivo), dor no peito ou nas costas (especialmente ao respirar ou tossir) e a presença de sangue no catarro (sinal de tuberculose avançada).
O tratamento da tuberculose dura no mínimo seis meses, é gratuito e está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), assim como o diagnóstico da doença. “O tratamento da tuberculose avançou, com a descoberta e disponibilização de novas drogas, que tornam os esquemas mais eficazes, com menos efeitos colaterais e menor tempo de tratamento”, completa Aguiar.
Avanços e desafios globais
De acordo com o relatório da OMS, o tratamento oportuno da tuberculose salvou cerca de 83 milhões de vidas desde 2000 no mundo. E, entre 2023 e 2024, o progresso em diagnóstico, prevenção e tratamento continuou refletindo o impacto de esforços sustentados e da inovação nos países: no ano passado, 8,3 milhões de pessoas foram diagnosticadas com TB e tiveram acesso ao tratamento (cerca de 78% das pessoas que adoeceram naquele ano) e a cobertura de testes rápidos para diagnóstico aumentou de 48% em 2023 para 54% em 2024.
No entanto, o progresso global ainda é considerado distante das metas estabelecidas pela “Estratégia pelo Fim da TB”, que prevê a erradicação da tuberculose até 2030. Um dos principais obstáculos, segundo a OMS, é o financiamento global, que tem permanecido estagnado desde 2020.
“Em 2024, apenas US$ 5,9 bilhões estavam disponíveis para prevenção, diagnóstico e tratamento da doença — pouco mais de um quarto da meta anual de US$ 22 bilhões estabelecida para 2027. Os cortes no financiamento internacional a partir de 2025 representam um desafio grave. Modelos preditivos já alertam que cortes prolongados podem resultar em até 2 milhões de mortes adicionais e 10 milhões de novos casos de tuberculose entre 2025 e 2035”, destaca a entidade internacional.
Além disso, o relatório aponta limitações quanto ao financiamento global para pesquisa, que em 2023 estava em 24% da meta. “Até agosto de 2025, 63 testes diagnósticos estavam em desenvolvimento e 29 medicamentos em ensaios clínicos — um salto expressivo em relação aos oito registrados em 2015. Além disso, 18 vacinas candidatas estão em ensaios clínicos, seis delas em fase 3”, detalhou a OMS.
Fonte: Tribuna da Bahia



