Cinco meses depois de um terreiro de candomblé ser pichado com mensagens ofensivas em Cajazeiras XI, uma mulher de 45 anos foi presa preventivamente pela Polícia Civil da Bahia, na manhã desta segunda-feira (6), em Salvador. Ela é investigada por racismo religioso e dano qualificado pelo ataque ao Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, casa de nação Angola, que atua há 33 anos na comunidade.
A prisão foi cumprida no bairro da Pituba, onde também foi realizado um mandado de busca e apreensão. Durante a ação, os policiais apreenderam dois aparelhos celulares, agendas e um notebook. O material será analisado e, segundo a Polícia Civil da Bahia (PC-BA), deve contribuir para o aprofundamento das investigações.
De acordo com a PC- BA, o ataque ocorreu em 20 de janeiro de 2026, quando a fachada e o portão de entrada do espaço religioso foram pichados com inscrições de cunho discriminatório e ofensivo. Entre as mensagens deixadas no local estavam as palavras “Jesus” e “assassinos”, escritas com tinta vermelha. O portão de pedestres, o interfone e a caixa de correio do terreiro também foram atingidos.
“A prisão é resultado das investigações relacionadas ao ataque ocorrido em 20 de janeiro de 2026 contra um terreiro localizado no bairro de Cajazeiras XI. Na ocasião, a fachada e o portão de entrada do espaço religioso foram pichados com inscrições de cunho discriminatório e ofensivo”, informou a Polícia Civil.
Ainda segundo a polícia, a identificação da suspeita foi possível após análise de imagens de videomonitoramento e coleta de provas, que fundamentaram a solicitação das medidas judiciais. Após ser submetida aos exames legais, a mulher, que não teve identidade revelada, permanece à disposição do Poder Judiciário.
As investigações são conduzidas pela Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin), unidade vinculada ao Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV). O inquérito segue em andamento para o completo esclarecimento dos fatos.
O Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza é uma casa de matriz africana de tradição banto/Angola, vertente do candomblé em que são cultuados os inquices, também chamados de minkisi. O terreiro é liderado pelo sacerdote Tata Mutá Imê e desenvolve atividades religiosas e comunitárias há mais de três décadas em Cajazeiras XI.
À época do ataque, a comunidade religiosa divulgou uma nota de repúdio em que classificou o episódio como racismo religioso e intolerância. No texto, o terreiro afirmou que a violência não atingia apenas a estrutura física da casa, mas também a liberdade de crença, o direito constitucional de culto e a dignidade das religiões de matriz africana.
“Tal ação não é apenas uma ofensa à nossa comunidade religiosa, mas configura um ataque direto à liberdade de crença, ao direito constitucional de culto e à dignidade das religiões de matriz africana”, diz trecho da nota. A comunidade também cobrou a identificação e punição dos responsáveis pelo ataque. “Nossa fé resiste. Nosso sagrado não será silenciado. Buscaremos por justiça”, afirmou o terreiro.
O caso ocorreu às vésperas do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, data de forte simbolismo na Bahia por lembrar a luta contra a perseguição às religiões de matriz africana. Após o episódio, entidades públicas e movimentos ligados à defesa da liberdade religiosa repudiaram o crime e cobraram providências das autoridades.
Fonte: Tribuna da Bahia



