A cena correu rápido nas redes e não é difícil entender por quê. Em plena avenida Paulista, uma das mais movimentadas de São Paulo (SP), a diarista baiana, Jussara Bonfim da Silva, 26 anos, foi imobilizada por policiais militares, gritando por socorro. A cena de violência foi testemunhada pela filha dela, de apenas 5 anos.
Dias depois da abordagem, ela decidiu procurar a Justiça. Quer indenização do Estado de São Paulo. Fala em humilhação pública, à luz do dia.
O que levou à abordagem
Jussara tinha trabalhado por quatro dias em uma empresa, o nome não foi divulgado, e esperava receber cerca de R$ 350. Disse que foi chamada ao escritório com essa promessa. Chegando lá, assinou documentos. Só então veio a negativa: não havia pagamento a ser feito.
O dinheiro seria usado para pagar uma mulher que cuida da filha enquanto ela trabalha. A frustração virou reação imediata. Nervosa, ela chutou a porta do local e danificou a estrutura. A Polícia Militar foi acionada.
“Trabalhei na empresa, fiquei quatro dias e pedi as contas. Falaram que era para eu receber, e por isso fui chamada lá. Quando eu cheguei lá, eu assinei o papel e a moça falou que não podia me pagar. Eu fiquei nervosa, chutei a porta. Se ela falasse: “você não tem direito a nada, assina se quiser”, eu ia ficar de boa. Mas ela esperou eu assinar”, contou ao Uol. A revolta, segundo ela, veio da forma como tudo foi conduzido. “Não aceitei ir no camburão”.
A abordagem policial não terminou ali. Jussara relata que se recusou a entrar no compartimento traseiro da viatura. Queria ir até a delegacia de outra forma. Foi nesse momento que a situação escalou.
Ela foi derrubada, imobilizada no chão e algemada. Tudo diante da filha pequena e de uma sobrinha recém-chegada a São Paulo, que a acompanhava naquele dia após uma entrevista de emprego.
“Foi na hora que eu não aceitei ir no camburão. Eu não merecia passar aquilo. Poderiam falar para gente ir na frente, mas eles e trataram como se fosse um sei lá o que, uma bandida. Eu não fiz nada, eu não destratei eles, nunca fui para cima deles”.
Horas na delegacia
Depois da imobilização, Jussara foi colocada à força na viatura. As três, ela, a filha e a sobrinha, foram levadas ao 78º Distrito Policial. Ficaram lá por horas, até serem liberadas.
O advogado dela, Rogério Carmo, já formalizou denúncia contra os agentes e prepara a ação judicial. Ele sustenta que houve excesso.
“Uma pessoa que está sendo conduzida a delegacia por crime de dano, que é um crime de menor potencial ofensivo, não deve, sob nenhuma hipótese, ser tratada como foi”, disse.
Ao Uol, ele disse que não há justificativa para o tipo de abordagem registrado no vídeo, considerando que se tratava de dano material, um delito classificado como de menor potencial ofensivo.
Versão da polícia
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirma que os policiais foram acionados para atender a uma ocorrência de ameaça e dano. Confirma que houve quebra de uma vidraça e diz que o uso da força foi necessário para conter a situação naquele momento.
A pasta acrescenta que a Polícia Militar acompanha o caso e que eventuais irregularidades serão apuradas, com responsabilização nas esferas administrativa e criminal, se for o caso.
Impacto dentro de casa
Se na internet o episódio virou debate, dentro de casa deixou marcas mais silenciosas. A filha de Jussara não quer mais ir à escola. Chora com frequência. Viatura policial, agora, virou motivo de medo.
“Ela está muito abalada e chora muito. Se ela vê um caro da polícia, ela fica assustada. Eu não tenho deixado ela ir para a escola”, contou a mãe.
A sobrinha, que havia acabado de conseguir emprego, também recuou. Preferiu não aparecer no trabalho depois da repercussão. Diz ter receio de ser reconhecida.
Vídeo viral e pressão política
As imagens já ultrapassaram meio milhão de visualizações. Foram registradas pelo guia de turismo Rafa Abranches e rapidamente ganharam repercussão. Entre os que compartilharam o vídeo está o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT), que cobrou explicações do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do apresentador Manoel Bonfim.
Rede de apoio
Com a história circulando, surgiu uma corrente de solidariedade. Uma vaquinha online foi criada e já passou dos R$ 30 mil, impulsionada por centenas de mensagens de apoio.



