A guerra no Oriente Médio pressiona os preços no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Ontem, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, pela manhã, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio. A carestia é percebida, sobretudo, nos alimentos — que acumulam alta de quase 5% nos últimos 12 meses — e nos combustíveis, que seguem pressionados pela restrição da passagem de navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz, no Irã.
Nesta segunda-feira (8/6), agentes do mercado financeiro elevaram novamente a projeção para o IPCA em 2026. A mediana das estimativas projeta uma inflação a 5,11% no fim do ano. Os dados foram publicados no Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central. Há quatro semanas, a expectativa era de 4,91% no fechamento de 2026. Para 2027, a estimativa também avançou, alcançando 4,03%. As projeções para os anos seguintes, porém, permanecem mais próximas da meta inflacionária, com expectativa de 3,65% em 2028, e de 3,50% em 2029.
Em relatório divulgado ontem, a XP é mais pessimista em relação à trajetória dos preços no país. A corretora prevê um avanço de 5,5% no acumulado de 12 meses até o fim do ano, muito acima do teto da meta prevista pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 4,5%. “Os preços de bens industrializados refletem a pressão nos custos globais. De fato, os preços ao produtor vêm aumentando substancialmente ao redor do mundo desde o início da guerra”, avalia a agência de investimentos, no relatório Onde Investir em 2026.
A persistência das pressões inflacionárias também levou o mercado a revisar para cima as expectativas para a taxa básica de juros. A projeção para a Selic ao fim de 2026 subiu para 13,5% ao ano, ante 13% esperados há um mês. Para junho, a expectativa está em 14,25%. Para o ano que vem, a previsão avançou para 11,5%, enquanto as projeções para 2028 e 2029 permanecem em 10%.
Para o professor de economia do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) Riezo Almeida, o Banco Central (BC) precisará adotar uma postura “extremamente dura” para reconquistar a credibilidade do regime de metas. “Manter os juros em patamar significativamente restritivo por mais tempo é o remédio amargo, porém indispensável, para evitar o descarrilamento inflacionário no segundo semestre”, avalia o acadêmico, que ressalta o ambiente global de incertezas geopolíticas alinhado com a proximidade das eleições para projetar uma Selic ainda elevada.
“O mercado está precificando uma conjuntura de pressões cambiais, incertezas fiscais domésticas e choques de oferta globais — como a recente escalada dos preços de commodities e petróleo devido às tensões internacionais”, avalia Almeida, que prevê a manutenção da taxa (de juros) na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ou, no máximo, um último corte de 0,25 ponto percentual no encontro marcado para 16 e 17 de junho.
Impacto mundial
Uma das principais agências de classificação de risco do mundo, a Fitch Ratings alterou, ontem, a perspectiva para o setor soberano global em 2026 de “neutra” para “em deterioração”, em razão do impacto econômico da guerra entre os EUA e Israel contra o Irã. Na prática, os agentes prevêem que o conflito prolongado enfraquecerá o crescimento do PIB em nível global, além de elevar a inflação e os rendimentos dos títulos soberanos. “No entanto, a recente resiliência da economia global e as condições de financiamento atenuam os riscos”, ressalvou a agência.
Apesar da visão pessimista da economia mundial, a Fitch acredita que os efeitos na América Latina devem ser menores em relação à atividade econômica, devido a condições macroeconômicas favoráveis. No Brasil, o Boletim Focus também elevou a previsão de crescimento do PIB em 2026 para 1,91%. Há quatro semanas, os agentes previam um crescimento de 1,85%. Para os anos seguintes, as estimativas permanecem praticamente inalteradas, com expansão de 1,7% em 2027 e de 2% tanto em 2028 quanto em 2029.
Fonte: Correio Brasiliense



