A máxima de que presidentes em fim de mandato não escapam de sentir esfriar o café servido em seus gabinetes parecia distante de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – até ontem.
Com a rejeição de Jorge Messias a uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) pelo Senado, seguida pela derrubada do veto da dosimetria aos condenados pelo 8 de Janeiro, o Congresso expôs fragilidades da terceira passagem do petista pelo Palácio do Planalto e mudanças na correlação de forças entre os Poderes que devem ser vistas tanto em retrospectiva quanto em perspectiva.
Nos outros dois mandatos (2003-2006 e 2007-2010), Lula vivia realidades muito distintas em relação ao desempenho do governo e à própria imagem de líder político.
O momento mais duro de desaprovação, em 2005, com o escândalo do mensalão, era compensado pelo bom desempenho da economia e a avaliação com tendência de alta – segundo o Datafolha daquele ano, mais da metade dos eleitores consideravam o governo ótimo ou bom, o que se confirmou com a reeleição em segundo turno.
Quatro anos depois, Lula atingiu o ápice da popularidade a ponto de conseguir fazer a sucessora, Dilma Rousseff, mesmo sem experiência prévia da então ministra nas urnas.
Mais uma vez, o crescimento econômico e a percepção de melhora de qualidade de vida entre os eleitores mantinham o café quente no terceiro andar do Planalto, mesmo com a transição de governo em curso – tanto que Dilma manteve a base de ministros que já estavam no governo, ou no mesmo cargo, como Guido Mantega na Fazenda e Nelson Jobim na Defesa, ou remanejando para outras pastas, a exemplo de Alexandre Padilha, Paulo Bernardo e Miriam Belchior.
Em 2026, ainda que os indicadores macroeconômicos não sejam negativos, a desaprovação de Lula nunca deixou de estar maior do que a aprovação, de acordo com o Índice CNN, agregador desenvolvido pelo Ipespe Analítica – em março e abril, o saldo foi de -6, e desde outubro tem sido negativo.
Pesquisas eleitorais mostram não só o principal pré-candidato da oposição, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em empate técnico ou vantagem numérica em eventual segundo turno contra o petista, mas também competitividade de outros nomes, como os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).
Nova correlação de forças
Aliados do governo e analistas apontam uma maior dificuldade de quaisquer governos em conseguir índices de aprovação como os vistos no Brasil de 2010, quando Lula obtinha 80% ou mais, em tempos de polarização política e redes sociais – a velocidade e a intensidade do debate nas plataformas digitais, por exemplo, torna menos garantido o dividendo político-eleitoral de políticas públicas que, antes, tinham resultado mais previsível.
A expectativa versus realidade de ações da atual gestão, como a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, é exemplo: o Planalto apostou fichas de que a medida teria repercussão já no começo de 2026, mas pesquisas têm mostrado baixa percepção de melhora no orçamento das famílias e, como consequência, pouca variação na aprovação de Lula.
Além disso, desde 2010 há uma nova dinâmica na correlação de forças entre os Três Poderes que o atual governo tem demonstrado dificuldade de lidar. Embora o Planalto tenha obtido vitórias na aliança informal com o Supremo Tribunal Federal ao longo do mandato, a relação ficou abalada após o caso Banco Master desgastar a imagem da Corte pela conexão de ministros com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A própria tensão interna no STF diante da possibilidade de as investigações atingirem magistrados parece ter influenciado votos de senadores na sessão que rejeitou a ida de Messias ao Supremo.
Soma-se a essa conjuntura o fato de o Congresso estar mais poderoso e independente em relação ao Executivo no acesso ao Orçamento da União – mesmo a liberação de emendas às vésperas da votação no Senado foi insuficiente para o Planalto garantir o mínimo de 41 votos a favor do indicado ao STF – foi a oposição, aliada ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), quem superou essa marca, com 42 votos.
O grupo que está à frente do Senado pela quarta vez – com o próprio Alcolumbre e Rodrigo Pacheco (PSB-MG) – esperava maior influência na indicação da vaga aberta pela aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso, no ano passado. Sem ser atendido, cobrou a fatura na votação secreta, e parece indicar que futuras escolhas de nomes para o Supremo, como as previstas para o próximo mandato, vão exigir mais articulação do que apenas o discurso de defesa de uma prerrogativa presidencial.
Café frio em tempos quentes
Em outros mandatos, presidentes chegaram até a fazer piada sobre a história do café frio – uma “verdade absoluta”, como afirmou Michel Temer (MDB) em dezembro de 2018, depois de contar que o café ainda quente, àquela altura do ano, surpreendia que o visitava no Planalto. Antes, em 1994, Itamar Franco chegou a comprar uma garrafa térmica para o gabinete, como antídoto a um eventual garçom do Palácio que já estivesse pensando em Fernando Henrique Cardoso.
Faltam oito meses até o fim do atual mandato e cinco até o primeiro turno deste ano – quanto mais o calendário eleitoral avançar, mais deve subir o termômetro da política. Em mais de 40 anos de vida pública, Lula tem histórico de ressurreição após opositores anunciarem o fim político do petista, e o exemplo mais recente foi a campanha eleitoral de 2022. Para repetir a dose e requentar o café em 2026, o presidente precisará mais do que uma garrafa térmica ou uma cafeteira própria.
Fonte: CNN Brasil



