A instalação da fábrica da BYD em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, gerou 22.080 empregos diretos, indiretos e induzidos em seu primeiro ano de operação, segundo levantamento apresentado ontem pela montadora chinesa e pelo Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB). Os resultados foram divulgados durante coletiva de imprensa na sede da entidade, em Salvador, e destacam os efeitos do empreendimento sobre o mercado de trabalho, a renda e a atividade econômica regional.
De acordo com os dados apresentados, a unidade industrial já emprega diretamente 9 mil pessoas, e a expectativa da empresa é alcançar 10 mil trabalhadores até o final deste ano. O levantamento também aponta que o salário médio na indústria de Camaçari é de R$ 3.905, valor 24% superior à média estadual, conforme informações divulgadas durante a apresentação dos resultados.
O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, destacou o peso da empresa no mercado de trabalho baiano e afirmou que a remuneração praticada pela montadora supera a média anteriormente observada no município. “A BYD tem um volume salarial 25% acima da média do que já estava em Camaçari, do que a gente tem no estado da Bahia. Já é o segundo maior empregador da indústria baiana”, declarou.
Levantamento
A diferença entre os percentuais mencionados por Baldy e os números apresentados no levantamento pode decorrer das bases de comparação utilizadas. O dado específico de 24% refere-se à média salarial informada para a indústria de Camaçari em comparação com a média estadual. A participação de trabalhadores da própria Bahia também aparece entre os indicadores destacados pela companhia. Segundo dados divulgados pela empresa, 90% dos 9 mil funcionários diretos são baianos. Metade desse contingente reside em Camaçari, enquanto outros trabalhadores vêm de municípios como Salvador, Simões Filho, Dias d’Ávila, Lauro de Freitas e Mata de São João.
Para os especialistas presentes, o resultado sinaliza que a contratação de mão de obra local é um dos principais canais de transmissão dos efeitos econômicos da fábrica. Além dos salários pagos diretamente aos funcionários, a atividade industrial movimenta setores como transporte, alimentação, comércio, serviços e fornecimento de insumos, embora a dimensão de cada efeito dependa da continuidade e da expansão das operações.
Investimento
O volume de recursos destinado ao complexo industrial também foi destacado durante a apresentação. Segundo o vice-presidente sênior da BYD, Alexandre Baldy, os investimentos realizados na unidade de Camaçari já ultrapassam R$ 11 bilhões nos últimos 24 meses. O montante informado supera o aporte inicial de R$ 5,5 bilhões anunciado para o projeto.
A fábrica baiana é considerada estratégica para a expansão da montadora no mercado brasileiro e para o avanço da produção nacional de veículos eletrificados. A empresa trabalha na conclusão das estruturas de soldagem, pintura e estamparia, etapas que permitirão ampliar o processamento local e reduzir gradualmente a dependência de componentes importados.
Durante a coletiva, Baldy afirmou que a demanda pelos veículos da marca já supera a capacidade produtiva disponível no país. “Estou vendendo acima da minha capacidade produtiva”, declarou o executivo. Segundo ele, a companhia comercializa cerca de 30 mil veículos por mês no Brasil, enquanto sua capacidade atual de produção é de aproximadamente 26 mil unidades.A pressão da demanda, de acordo com o dirigente, antecipou os planos de expansão da montadora. “Essa demanda da segunda fase, que nós imaginávamos, ao longo de 2027 ou 2028, já se torna necessária desde já”, afirmou.
A empresa também pretende ampliar a capacidade anual de produção da fábrica baiana. Segundo informações apresentadas por Baldy, o projeto prevê chegar a 300 mil veículos por ano e avançar posteriormente para uma capacidade de até 600 mil unidades anuais, conforme o cronograma de expansão do complexo. O processo de nacionalização dos veículos é outro fator considerado estratégico. O executivo explicou que a ampliação da produção local é importante para tornar a operação mais competitiva e viabilizar exportações para países do Mercosul. “Para que você possa exportar para o Mercosul, é uma exigência que você tenha no mínimo 35% de componentes locais. Portanto, para nós é de extrema urgência que a gente comece a produzir localmente”, declarou.
Fornecedores e cadeia produtiva
Os efeitos da chegada da BYD não se restringem aos empregos criados dentro da fábrica. A expectativa é que o aumento da produção estimule a instalação e a expansão de empresas fornecedoras de peças, componentes, equipamentos e serviços industriais na Bahia. Em outubro de 2025, a montadora realizou um encontro com aproximadamente 130 representantes da indústria automotiva no Senai Cimatec, em Salvador, para aproximar potenciais fornecedores da nova operação. A iniciativa integrou a estratégia de ampliar a participação de empresas brasileiras na cadeia de suprimentos da fábrica.
O Observatório da Indústria da FIEB iniciou o estudo em julho deste ano, com uma visita técnica à fábrica de Camaçari. A pesquisa foi estruturada para mensurar os efeitos diretos, indiretos e induzidos da instalação da empresa, considerando indicadores de emprego, renda, arrecadação tributária, fornecedores, atração de investimentos e dinamização da atividade industrial.
Na ocasião, o gerente do Observatório da Indústria, Ricardo Kawabe, destacou a importância da análise para compreender os desdobramentos econômicos do empreendimento. “A chegada da BYD representa um marco para o desenvolvimento industrial da Bahia. Este estudo permitirá mensurar, com rigor técnico e metodologia consistente, os impactos desse investimento para a economia estadual”, afirmou, segundo publicação da FIEB sobre o início do levantamento.
Desafios para a economia baiana são apontados
Apesar dos números apresentados, a ampliação dos benefícios econômicos depende da consolidação da produção nacional e do fortalecimento da cadeia produtiva local. O volume de empregos indiretos e induzidos, por exemplo, deve ser interpretado conforme os critérios metodológicos utilizados para identificar os postos de trabalho associados à atividade da montadora.
Outro ponto relevante é a capacidade de as empresas instaladas na Bahia atenderem à demanda da fábrica. A formação profissional, a qualificação técnica, o acesso a financiamento e a modernização industrial estão entre os fatores que podem determinar quanto do investimento será absorvido por fornecedores locais. Baldy também defendeu um ambiente regulatório estável para a continuidade dos investimentos. “Porque o investidor, seja ele brasileiro, seja ele internacional, ele quer um ambiente tranquilo, pacificado e, especialmente, transparente, para que ele possa investir seu capital, arriscando seu capital”, afirmou.
O executivo relacionou a previsibilidade econômica à geração de empregos e ao crescimento da renda. “E o que é de consequência para nós, brasileiros: geração de emprego, promoção de renda, crescimento do nosso PIB e um fortalecimento da economia brasileira”, declarou. Os resultados divulgados representam um primeiro retrato dos efeitos da instalação da BYD em Camaçari. A continuidade do levantamento e o acompanhamento dos indicadores de emprego, salários, arrecadação e contratação de fornecedores serão importantes para dimensionar a contribuição do empreendimento para a economia estadual nos próximos anos.
Fonte: Tribuna da Bahia



