A indústria baiana chega ao Dia Nacional da Indústria, celebrado em 25 de maio, vivendo um momento de expansão, mas também de forte tensão diante das incertezas econômicas e políticas do país. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), o setor movimenta cerca de R$ 76 bilhões na economia estadual, responde por aproximadamente 26% da atividade econômica baiana, emprega mais de 457 mil trabalhadores e mantém a Bahia como principal potência produtiva do Nordeste.
Os números ajudam a explicar por que a atividade produtiva voltou ao centro dos debates nacionais. Em um cenário marcado por juros elevados, desaceleração econômica global, avanço da concorrência chinesa e discussões sobre mudanças nas relações de trabalho, empresários e representantes do setor defendem que o Brasil precisa fortalecer sua capacidade de produção para garantir competitividade, investimentos e geração de renda.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o setor responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro e concentra mais de 11 milhões de empregos formais no país. Na Bahia, além da força histórica do Polo de Camaçari, o avanço das energias renováveis, da mineração, dos biocombustíveis e da indústria automotiva vem consolidando um novo ciclo econômico baseado em inovação e sustentabilidade.
Mesmo assim, os receios seguem crescendo dentro do empresariado. O custo do crédito, os gargalos logísticos, a carga tributária, a concorrência internacional e os debates em torno da possível redução da escala 6×1 aparecem entre os principais temas que hoje mobilizam o setor produtivo. Embora empresários reconheçam avanços sociais nas discussões trabalhistas, há preocupação sobre os impactos que mudanças abruptas podem provocar nos custos operacionais e na competitividade das empresas brasileiras.
Presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Carlos Henrique Passos afirma que o ambiente econômico ainda impõe obstáculos importantes para a expansão produtiva no país.
“As taxas básicas de juros no Brasil ainda estão em um patamar elevado, o que desestimula investimentos, reduz a competitividade da indústria e impacta negativamente a geração de emprego e renda”, afirmou o dirigente.
Segundo ele, a expectativa inicial do mercado apontava para uma Selic próxima de 13% até o final do ano, mas revisões recentes elevaram a preocupação do setor produtivo em relação ao custo do crédito. Conforme avaliação da FIEB, a continuidade da redução dos juros é considerada essencial para ampliar investimentos e reduzir os custos operacionais das empresas.
Em reportagem especial publicada pela Tribuna da Bahia no ano passado, o debate já apontava que a Bahia atravessava um processo de transformação econômica impulsionado pela inovação, sustentabilidade e reconfiguração do mercado internacional. Na ocasião, a publicação destacou que “a indústria baiana respirava inovação e sustentabilidade”, refletindo uma mudança estrutural do perfil produtivo estadual.
Desde então, boa parte das preocupações levantadas naquele período permanece atual. A diferença é que, agora, o ambiente econômico nacional passou a incorporar novos elementos de tensão, como o avanço da concorrência internacional, especialmente chinesa, a pressão sobre os custos de produção e as incertezas em torno do ambiente regulatório brasileiro.
Energia verde, transição econômica e a nova força produtiva da Bahia
Se há consenso dentro do empresariado, ele passa pelo reconhecimento de que a Bahia reúne algumas das condições mais estratégicas do país para liderar um novo ciclo econômico ligado à economia verde.
Segundo Carlos Henrique Passos, o avanço das cadeias globais de sustentabilidade abriu uma janela de oportunidades importante para estados capazes de produzir energia limpa em larga escala.
“Realmente, a Bahia tem potencial de crescimento e atração de investimentos em setores relacionados à transição energética, à bioeconomia e à sustentabilidade”, afirmou o presidente da FIEB.
Conforme levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Bahia possui forte presença em áreas ligadas à construção civil, energia, químicos, alimentos, celulose, biocombustíveis e transformação produtiva. Os segmentos ligados à geração energética e aos serviços de utilidade pública representam parcela importante da composição econômica estadual.
A força energética da Bahia aparece hoje como um dos principais ativos econômicos do estado. A combinação entre ventos constantes, elevada incidência solar e expansão dos biocombustíveis vem colocando o território baiano entre os mais observados por investidores nacionais e estrangeiros.
“A disponibilidade de ventos constantes e a elevada radiação solar têm impulsionado a geração de energia elétrica renovável no estado. Esse potencial pode sustentar a expansão da oferta energética e atrair atividades intensivas em energia, como data centers e novos empreendimentos industriais”, destacou Carlos Henrique Passos.
Em 2024, durante entrevista à imprensa econômica baiana, o presidente da FIEB já havia comemorado a chegada da montadora chinesa BYD ao Polo de Camaçari, classificando o empreendimento como um dos investimentos mais relevantes para a economia estadual nos últimos anos.
“A BYD é o grande investimento da Bahia e terá um impacto significativo nos nossos indicadores industriais”, declarou à época.
A expectativa do setor produtivo é que a chegada de novos empreendimentos ligados à transição energética, veículos elétricos e tecnologia ajude a reposicionar a Bahia dentro do mapa econômico brasileiro, ampliando a participação do estado em cadeias globais mais sofisticadas e sustentáveis.
Na matéria publicada pela Tribuna da Bahia no ano passado, representantes do empresariado já alertavam que o desafio não seria apenas produzir energia limpa, mas transformar essa vantagem natural em desenvolvimento econômico permanente, inovação tecnológica e fortalecimento das cadeias produtivas locais.
Além da energia renovável, outro ponto que vem fortalecendo a atividade econômica baiana é o avanço da interiorização produtiva. Municípios ligados à mineração, agronegócio, celulose e geração energética passaram a atrair novos investimentos, ampliando a circulação de renda e reduzindo a dependência econômica de Salvador e da Região Metropolitana.
Segundo especialistas do setor, esse movimento ajuda a consolidar novas vocações econômicas no interior do estado, ao mesmo tempo em que fortalece a formação de mão de obra técnica e a chegada de serviços especializados. Para representantes do empresariado, o desafio agora é garantir infraestrutura, qualificação profissional e segurança jurídica para sustentar esse novo ciclo de crescimento.
Juros altos, infraestrutura e os novos temores do setor produtivo
Apesar das perspectivas positivas, empresários seguem acompanhando com cautela o cenário econômico nacional. Entre as maiores preocupações aparecem os juros elevados, a carga tributária, os gargalos logísticos e o aumento da concorrência internacional sobre a produção brasileira.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção nacional registrou crescimento em 2024, mas o ritmo desacelerou nos levantamentos mais recentes, refletindo dificuldades enfrentadas principalmente pelos segmentos petroquímico e químico, bastante relevantes para a economia baiana.
Conforme avaliação da FIEB, parte desse cenário está ligada à desaceleração internacional, à pressão dos produtos importados e às dificuldades de competitividade enfrentadas pelo país.
“A China se tornou o maior exportador de produtos do mundo, inundando mercados planeta afora, o que também atinge o Brasil”, alertou o superintendente da FIEB, Vladson Menezes, em análise divulgada pelo Observatório da Indústria.
O presidente da FIEB também chama atenção para problemas históricos de infraestrutura que continuam limitando a competitividade baiana.
“A FIOL segue incompleta, o Porto Sul aguarda suas obras serem iniciadas, e a malha rodoviária do interior compromete a competitividade dos nossos produtos no mercado nacional e internacional”, afirmou.
As discussões sobre a reforma tributária também seguem mobilizando o setor produtivo. Embora empresários reconheçam avanços na tentativa de simplificação do sistema brasileiro, ainda existe preocupação sobre a implementação das mudanças e seus efeitos práticos sobre custos e competitividade.
“Quando analisamos a situação da indústria baiana com critério, a tributação complexa e onerosa continua sendo o entrave mais estrutural e urgente”, afirmou Carlos Henrique Passos.
Outro tema que passou a preocupar parte do empresariado envolve as discussões nacionais sobre flexibilização da jornada de trabalho e eventual redução da escala 6×1. Embora setores produtivos reconheçam o avanço social do debate, empresários demonstram receio sobre impactos nos custos operacionais, principalmente em atividades contínuas, que dependem de funcionamento ininterrupto e grande volume de mão de obra.
Nos bastidores do setor produtivo, a avaliação predominante é de que mudanças dessa magnitude precisam ser acompanhadas de redução de encargos, segurança jurídica e políticas que preservem competitividade e produtividade.
Mesmo diante dos desafios, a FIEB afirma que a Bahia seguirá apostando em inovação, educação técnica, qualificação profissional e sustentabilidade como caminhos para ampliar competitividade e garantir crescimento de longo prazo.
A nova gestão da entidade, iniciada este ano, vem estruturando uma agenda estratégica voltada para o período entre 2026 e 2030, priorizando educação alinhada às demandas do mercado, fortalecimento do ambiente de negócios, superação de gargalos logísticos e estímulo à inovação tecnológica.
“A Bahia tem condições de liderar um novo ciclo industrial, desde que haja planejamento, investimento em educação, articulação institucional e capacidade de transformar suas vantagens naturais em cadeias produtivas mais robustas, modernas e competitivas”, afirmou Carlos Henrique Passos.
Fonte: Tribuna da Bahia



