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São João: sanfoneiros criticam a invasão de outros estilos, mas veem mudança com nova lei

O sanfoneiro é a alma das festas juninas. Afinal, o instrumento é responsável pelo ritmo do forró e símbolo da identidade nordestina. Consagrada nacionalmente por nomes como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, a sanfona, junto ao triângulo e à zabumba, exerce o papel de manter viva toda essa herança cultural.

Os sanfoneiros, entretanto, vêm perdendo seu protagonismo no São João para grandes atrações musicais de estilos que não condizem com o perfil da festa junina. A Cota de Valorização do Forró e Artistas Regionais, instituída pelo Governo do Estado da Bahia, chega como uma esperança. A medida estabelece uma reserva obrigatória de 25% nos investimentos e grades de atrações dos festejos juninos, exigindo a contratação prioritária de sanfoneiros e artistas locais para preservar a tradição autenticamente nordestina.

Artistas como Targino Gondim, Bruninho do Acordeon e Gildo Arano falam ao Caderno Municípios sobre suas vivências como artistas nordestinos e opinam sobre o mercado junino. Eles mostram que, para além de seus talentos, a disciplina, a perseverança e o respeito à cultura regional são suas molas propulsoras.

Targino criou festival para manter a tradição do forró autêntico

Cantor, compositor e sanfoneiro baiano reconhecido nacionalmente, Targino Gondim acumula premiações como o Grammy Latino e o Troféu Caymmi, além de ser autor de projetos dedicados ao forró, baião, xaxado e xote, como o Festival Internacional da Sanfona e o Festival de Forró da Chapada.

Secretário de Cultura, Turismo e Esporte de Juazeiro desde 2024, o artista segue sua trajetória focado em fortalecer o forró tradicional, mantendo o compromisso com a valorização da sanfona como um dos mais importantes símbolos da música nordestina.

“Temos um mercado agressivo, que investe bastante na mídia, nos contatos, nos acertos. E a gente, em detrimento disso, acaba perdendo o protagonismo da sanfona, dos sanfoneiros e dos forrozeiros. Com isso, a cultura, as tradições genuínas vão se perdendo”, analisa Targino, que ganhou projeção no país em 2001 ao vencer o Grammy Latino com a canção “Esperando na Janela”, sucesso na voz de Gilberto Gil e incluída na trilha do filme “Eu, Tu, Eles”.

As novas regras de fiscalização, criadas por órgãos como o Ministério Público da Bahia e Tribunais de Contas sobre os cachês milionários pagos por prefeituras, poderão ajudar na saúde financeira das administrações públicas municipais, na opinião de Targino.

“Isso não significa que vão passar a pagar valores não tão exorbitantes pelos shows, ou que a medida venha a repercutir na contratação de atrações legítimas da época junina. Essas mudanças têm que ser cobradas pelo próprio povo nordestino”, considera.

Outro fato importante, destaca Targino, é a obrigatoriedade determinada pelo Governo do Estado de que pelo menos 25% dos recursos públicos destinados às contratações artísticas nos festejos juninos sejam aplicados em atrações locais e no forró tradicional.

“Tomara que consigam, realmente, fiscalizar para que ao menos uma boa parte cumpra as exigências. Tenho que bater palmas para esta ação positiva e precisamos de outras tantas como esta”.

O cenário de desvalorização dos sanfoneiros e demais músicos que se dedicam ao forró, pontua Targino, atinge a todos, em suas devidas proporções. “Na época junina, sou muito requisitado e tenho que agradecer muito por meu trabalho ser bem aceito, o que acaba me proporcionando mais facilidade de trabalhar nesse período. Mas mesmo para mim não são nulas as dificuldades frente ao mercado atual”, diz.

Para reverenciar o forró, Targino gravou o DVD “Três nordestinos: um por todos e todos pelo forró”, junto a Flávio José e Santana O Cantador, com clássicos de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, entre outros mestres. “Estamos muito felizes com o resultado alcançado nas plataformas de música”, conta Targino.

O próprio Festival de Forró da Chapada, criado em 2017, idealizado por ele, contribui para a promoção do gênero. “O evento já é tido como o melhor e maior festival de forró do mundo, porque aquece a economia de toda a Chapada Diamantina, é palco para sanfoneiros e oportuniza aulas de sanfona, zabumba e triângulo para os interessados.”

Bruninho critica presença de estilos que não têm ligação com São João

Bruninho do Acordeon, nome artístico de Bruno Santos Moreira, tinha apenas sete anos quando começou a estudar bateria e percussão, mas logo se interessou pelas aulas de piano, ministradas pela professora Marialice Regis. Curiosamente, foi por meio do filho da pianista, o cantor Leo Macedo (Estakazero), que Bruninho conheceu o forró. Foi quando se encantou por um novo instrumento: a sanfona.

Apesar de entender a dinâmica do mercado, o músico diz se incomodar com a massificação na programação junina de estilos que não têm a ver com o São João. “Não concordo com uma grade tomada por bandas de artistas que não são do forró”.

Para Bruninho do Acordeon, o fato deve ser motivação para os sanfoneiros se organizarem financeiramente, ao longo do ano, com o intuito de ganharem visibilidade no período da festa. “Temos que trabalhar o ano inteiro, produzir coisas novas, fazer um trabalho consistente e investir na divulgação para que as prefeituras acabem contratando nossos shows”.

Por isso, durante o ano, ele procura ser um músico mais versátil. “Montei o Projeto Bruninho Sanfonado, justamente para agregar e agradar mais o público em geral, tocando a maioria dos estilos na sanfona. A base do show é forró, mas, às vezes, as pessoas pedem um sertanejo, um axé, um reggae. E, assim, venho tocando o ano inteiro, de quinta a sábado ou a domingo, em vários lugares, com a minha banda”, revela o músico, que começou a tocar profissionalmente aos 16 anos, tendo passado pelas bandas Forrozada, Clone de Mim e Flor de Maracujá.

Prestes a fechar a agenda para o São João 2026, Bruninho acredita que, com a Cota de Valorização do Forró e Artistas Regionais, estabelecida pelo governo estadual, os sanfoneiros terão mais oportunidades de tocar na festa junina, este ano. “Vai nos ajudar a tocar mais para, assim, nos capitalizarmos e podermos reinvestir no nosso trabalho”, aposta.

Bruninho do Acordeon caiu na estrada aos 18 anos, com a Banda Tio Barnabé, da qual era sócio e sanfoneiro, entre 2004 e 2008. Também tocou sanfona nas bandas Estakazero e Cangalha de Jegue e para o cantor Léo Santana, na sua turnê junina de 2017. Mas, como disse Luiz Gonzaga, “para o sanfoneiro que não canta, só toca sanfona, a estrada fica mais difícil”.

Assim, decidiu pela carreira solo também como cantor. Gravou alguns álbuns de estúdio e registros ao vivo em grandes festejos de São João, incluindo um DVD com as participações de Adelmário Coelho e Cicinho de Assis, entre outros nomes do forró.

O artista segue trabalhando sem se apegar a rótulos. “Toco tudo, desde o forró das antigas ao atual. Bote aí: faço forró atualizado”, diz, enfatizando sua versatilidade e seu vínculo com a sanfona.

“Tudo é mutável, se transforma. Assim como tivemos o sertanejo por muitos anos em evidência, dominando o mercado, tivemos o forró universitário, com o Falamansa, nos anos 2000, que foi febre também nacional; e estamos vendo agora a volta do forró com o projeto Dominguinho (João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho) tomando um cenário mundial, ganhando um prêmio latino”, avalia.

Prefeituras deveriam assumir maior responsabilidade” diz Gildo

Gildo Arano tem uma forte ligação com o forró desde menino, quando desenhava nas folhas do seu caderno os teclados da sua imaginária sanfona. Aos 15 anos, ele conta que os pais fizeram um esforço e materializaram seu sonho de se tornar músico ao presenteá-lo com o instrumento.

“O São João é um patrimônio cultural e afetivo do povo, com uma profunda tradição principalmente do Nordeste brasileiro, e vai além da música. Existe toda uma cultura em volta: comidas, fogueira, roupas, danças, brincadeiras, convivência entre as famílias”, pontua o músico, natural do município baiano de Seabra.

Por isso, afirma, as prefeituras deveriam se responsabilizar mais pelo fortalecimento dessa tradição.

“Sinceramente, me causa um certo desgosto ver bandas tocando no palco principal de festas juninas com repertórios completamente desconectados da linguagem do São João. Mas o que mais me entristece é ver colegas sanfoneiros e músicos do forró pé-de-serra abandonando sua linguagem musical para seguir algo mais comercial por necessidade de sobrevivência”, diz.

A Cota de Valorização do Forró e Artistas Regionais é vista com bons olhos por Gildo. “A sanfona faz parte da narrativa histórica e afetiva do Nordeste. Valorizar esse instrumento é também valorizar a memória cultural da região”.

Para Gildo, uma das dificuldades dos sanfoneiros é a visão limitada de muita gente em relação à música nordestina. “Enxergam como se fosse algo quase folclórico, decorativo ou sazonal, mas existe uma profundidade cultural, musical e identitária dentro dessa tradição”.

Por outro lado, diz, está acontecendo uma cena interessante do forró. “Projetos como o de Mestrinho, João Gomes e Jota Pê mostram que existe uma retomada do interesse pela sanfona e pela música nordestina tradicional, inclusive com repercussão internacional”, acredita. Durante muitos anos, a dedicação de Gildo esteve voltada ao estudo, à pesquisa e formação acadêmica.

“Logo depois que me formei, veio a pandemia (da Covid 19) e isso interrompeu muitos projetos. Quando os shows voltaram, senti o desejo de montar uma banda e levar meu trabalho artístico para os palcos”, recorda. Ele chegou a tocar no São João de Lençóis, Iraquara, Piatã, Mucugê e Seabra, sua cidade natal, onde reside atualmente.

Mas, sem contratos, afirma, fica difícil estruturar banda, ensaios e toda a logística necessária para um show maior. “Isso foi algo que me gerou certa frustração como artista”, relata. O sanfoneiro, que já integrou o Grupo Rumpilezzinho, do maestro Letieres Leite (1959-2021), passou a se dedicar à missão de “ensinar música de um jeito simples e descomplicado”.

O ensino da sanfona se dá através de aulas, cursos, livros e conteúdos digitais de sua autoria. “Dou aula diariamente, ouvindo, cantando, analisando acordes, observando dificuldades e descobrindo novas formas de pensar o instrumento”, relata.

A existência de brasileiros que moram fora do país e procuram o seu curso como forma de manter uma conexão com o páis surpreende o professor, que já teve alunos da Austrália, França, Alemanha e Estados Unidos, entre outros países.

Fonte: A Tarde

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