No mês em que as atenções se voltam para a conscientização do Maio Amarelo, os dados estatísticos acendem um alerta vermelho para quem pilota sobre duas rodas. Longe de ser um problema apenas de engenharia de tráfego, as ocorrências com motos viraram uma verdadeira crise de saúde pública na Bahia.
O dado é alarmante: os motociclistas já representam 32% de todas as mortes ocorridas nas rodovias baianas.
Os números das estradas federais que cortam o estado desenham uma tragédia em formato de boletim. Foram 1.600 acidentes envolvendo motocicletas, gerando 179 óbitos imediatos. A Polícia Rodoviária Federal aponta que a imprudência lidera as causas de mortes, tendo a colisão frontal como o tipo mais fatal.
Entre os principais gatilhos para essas fatalidades estão transitar na contramão (108 registros), realizar ultrapassagens indevidas (64) e a ausência de reação do condutor (59).
Medo, armadilhas e a guerra por espaço
Para entender quem são os personagens por trás das estatísticas, ouvimos quem enfrenta o asfalto diariamente. A rotina é descrita como uma disputa hostil, repleta de armadilhas estruturais. O entregador e motorista de moto por app Paulo Perrone relata que se sente inseguro em bairros como Santa Cruz e Nordeste devido à dinâmica das facções locais, mas que o verdadeiro pânico se manifesta nas avenidas. No trânsito, ele revela se sentir inseguro por causa da disputa constante de espaço entre ônibus e carros, além de apontar problemas estruturais nas vias, como a falta de sinalização, buracos frequentes e óleo na pista.
A sensação de perigo iminente é compartilhada pelo engenheiro e motociclista Kevin Luís. Ele relata que os trechos de vias com grande densidade de veículos geram forte apreensão, mas pondera que a sinalização eficaz e a presença de radares ajudam a trazer uma percepção de segurança.
“E sobre locais perigosos, eu diria que as estradas principais como a Avenida Paralela e BR-324. As pessoas se empolgam quando veem a ‘falta de obstáculos’, e gostam de acelerar demais, se preocupando somente em desacelerar nos pontos que possuem radar”, avalia Kevin Luís.
O motociclista também analisa a falta de convivência harmoniosa entre os motoristas e destaca as armadilhas do asfalto em formato de ranking. Ele defende que no trânsito sempre é necessária atenção dobrada, já que nunca se sabe o estado psicológico dos outros condutores.
Ao comparar o nível de cuidado, Kevin afirma notar que quanto menor o veículo, maior a tendência de desrespeito mútuo, embora pondere que os veículos pesados costumam ser mais cautelosos por terem maior noção do estrago que podem causar. No entanto, ele confirma que há uma briga nítida entre carros e motos, e que a rivalidade entre os próprios motociclistas é ainda mais acentuada.
No quesito infraestrutura, Kevin Luís lista suas principais ameaças: “Falta de sinalização e buracos são os maiores problemas, eu diria. Óleo na pista é o mais grave? Sim. Contudo não é o maior quantitativo. Eu lido com buracos e sinalizações escassas o tempo inteiro. Se eu fosse rankear por perigo, colocaria Óleo na pista > Buracos > Falta de Sinalização > Corredores Estreitos”.
Essa percepção de colapso na educação e infraestrutura viária ganha coro na análise de Edson Gordura, motociclista, taxista e presidente do grupo Mensageiros de Cristo (ME). Ele aponta que o momento em que se sente mais vulnerável em seu trajeto diário acontece sempre no período da manhã, quando o fluxo de veículos nas ruas se torna excessivamente grande e descoordenado.
“O ponto mais perigoso da cidade é na região do Iguatemi. Porque existe um fluxo muito grande de veículos e muitas vias entrelaçadas entre elas. A relação com motoristas de carros e ônibus e caminhões é relativo ao que acontece na hora. Há respeito sim por alguns e uma disputa de vez em quando pelo espaço na via”, afirma Edson Gordura.
O líder dos Mensageiros de Cristo também aponta os buracos como a pior armadilha urbana para quem está sobre duas rodas, classificando o impacto como “queda certa e destruição do veículo”. Edson confirma que ouve frequentes desabafos de entregadores e motoristas de aplicativo sobre a cobrança severa que sofrem por tempo, e indica uma reformulação profunda na base como saída:
“Para reduzir acidentes com motociclistas em Salvador, seria preciso rever os treinamentos que são dados nas Auto Escolas, pois as mesmas só ensinam como fazer o teste no Detran para tirar a CNH e não ensinam como conduzir com segurança uma motocicleta no trânsito da cidade”.
A pressão dos aplicativos
A urgência imposta pelas plataformas digitais de entrega adicionou um elemento de alta periculosidade à rotina do trânsito baiano. Caroll Moniz, presidente do Moto Clube Binários e que atuou por quatro anos como diretora de eventos da Associação Baiana de Motociclismo (Amo Bahia), traz revelações sobre os bastidores da categoria e o comportamento de risco de profissionais e motoristas comuns.
Ela conta que os horários de engarrafamento intenso geram grande preocupação por limitar a mobilidade ágil. Caroll cita que bairros periféricos despertam medo e classifica localidades como Pau da Lima e São Marcos como “impraticáveis” para pilotar, denunciando que muitos moradores dessas regiões circulam sem capacete, de chinelos e carregando crianças pequenas em cima das motos, ignorando as sinalizações.
Ela confirma que há uma disputa feroz por espaço nas grandes avenidas e revela que o comportamento abusivo parte também do transporte público, mencionando ser nítido o comportamento de motoristas jogando ônibus em cima dos condutores de moto.
Caroll Moniz elogia iniciativas como a faixa exclusiva de ônibus na Orla de Salvador e a implementação da “faixa azul” em artérias como a Avenida Bonocô (Mário Leal Ferreira), mas ressalta que as medidas esbarram na conduta dos motoristas. Segundo ela, embora os dados comprovem uma redução nas mortes na Bonocô após um ano da faixa azul, o índice de acidentes menores disparou porque os condutores se recusam a respeitar a demarcação. No entanto, sua denúncia mais grave envolve as táticas utilizadas para mascarar os acidentes de trabalho nas plataformas de entrega.
“Um dos grandes problemas em relação a esses aplicativos de entrega é que eles não querem ser responsabilizados por acidentes. Horário eles têm e todo mundo sabe, eles têm que correr contra o tempo. Eu já vi acidentes com pessoas com bag atrás. Imediatamente, o cara ainda no chão, chega outro e tira a bag para que o bag não identifique a pessoa que foi acidentada para não botar como se fosse funcionário daquele aplicativo. E quando entram no HGE (Hospital Geral do Estado), eles não relatam que estavam a trabalho. A associação não pode fazer muito, nós não temos o apoio da prefeitura e não temos apoio do governo para nada. Quem mantém a Associação Baiana de Motociclistas são os motociclistas. Isso é fato”, dispara Caroll Moniz.
A presidente do Motoclube Binários, que perdeu o marido há sete anos em um acidente de moto no interior da Bahia, faz uma diferenciação entre o comportamento de motociclistas integrados a motoclubes — que seguem regras rígidas de conduta e se acidentam menos — e os “motoqueiros” que utilizam o veículo sem preparo e cometem infrações gravíssimas, como subir canteiros centrais em avenidas como a Luiz Eduardo Magalhães para cortar caminho.
“Eu acho que a multa quando dói no bolso, dá um resultado maior”, conclui.
Impacto nos hospitais públicos
A violência das pistas se traduz em um impacto financeiro sufocante para a rede hospitalar da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). De acordo com um levantamento oficial da pasta, o custo com internações decorrentes de acidentes de moto explodiu nos últimos anos: saltou de R$ 115,8 milhões em 2023 para R$ 138 milhões em 2024, atingindo a expressiva marca de R$ 148,6 milhões no balanço consolidado de 2025.
Geograficamente, a região Centro-Leste — que engloba municípios populosos como Feira de Santana, Serrinha e Itaberaba — foi a que mais demandou recursos, consumindo R$ 45,7 milhões (30,7% do total do estado). Logo atrás vem a região Leste, impulsionada por Salvador e região metropolitana, cujo custo assistencial alcançou R$ 36,9 milhões.
Cada paciente internado por esse tipo de trauma custa, em média, R$ 10.664,79 aos cofres públicos. O tempo médio de permanência nos leitos é de sete dias, mas, nos quadros mais graves em que há necessidade de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o período mínimo de internação sobe para 15 dias. No perfil epidemiológico mapeado, os homens são as principais vítimas, correspondendo a 81% das internações, contra 19% do sexo feminino.
Impacto social
O Hospital Ortopédico do Estado da Bahia (HOEB) transformou-se no termômetro dessa crise. A unidade realiza cerca de 450 atendimentos regulados de urgência a cada 30 dias. Desse montante, aproximadamente 60% estão diretamente relacionados a acidentes de trânsito, sendo que 40% deste grupo envolvem especificamente motociclistas.
A diretora de Gestão de Serviços de Saúde, Zaine Lima, aponta que do ponto de vista assistencial, os traumas causados por acidentes com motos são extremamente complexos. Ela detalha que a rotina da unidade envolve lidar com lesões severas e de alta gravidade.
“O HOEB relata alta frequência de fraturas expostas de tíbia e fíbula, fraturas de fêmur, lesões graves de pelve e coluna, além de amputações traumáticas. Muitos pacientes precisam passar por múltiplas cirurgias e longos processos de recuperação”, afirma Zaine Lima.
Esse cenário gera um custo social e familiar que ultrapassa os limites dos prontos-socorros. A secretária da Saúde do Estado, Roberta Santana, pondera que o fato de as vítimas serem majoritariamente homens jovens, em plena fase laboral, agrava as consequências econômicas da violência.
“Isso amplia muito o impacto social desses acidentes, porque não estamos falando apenas de uma internação. Estamos falando de afastamento do trabalho, perda de renda familiar, reabilitação prolongada e, muitas vezes, sequelas permanentes”, explica a secretária Roberta Santana.
A chefe da pasta da Saúde também chama a atenção para o impacto emocional invisível que acompanha os sobreviventes. Conforme relata, além das marcas físicas evidentes, muitos pacientes passam a conviver com quadros de dor crônica, crises de ansiedade, depressão profunda e barreiras severas para a reinserção social e o retorno ao mercado de trabalho.
Por conta disso, Roberta Santana defende que o problema seja encarado como uma pauta estratégica de saúde pública e de sustentabilidade do sistema, e não apenas como uma questão isolada de trânsito.
Maio Amarelo: blitze, educação e cerco aos infratores
Diante do rastro de violência, o poder público tenta reagir intensificando as campanhas e o policiamento. Em entrevista ao site, o diretor-geral do Detran-BA, Max Passos, explicou que a autarquia mantém o trabalho educativo ativo durante todo o ano, mas que o mês de maio exige um esforço concentrado para tocar em feridas complexas da mobilidade urbana, como o desrespeito aos limites de velocidade e a falta do uso de equipamentos obrigatórios de proteção.
“O foco no motociclista serve para demonstrar a importância de respeitar as leis de trânsito, usar o capacete e obedecer à velocidade da via. Sabemos que 70% dos acidentes envolvem motociclistas e, desses episódios, infelizmente 30% vêm a óbito. Só com a união entre educação e fiscalização vamos conseguir reduzir esses números”, pontuou o diretor-geral Max Passos.
A estratégia do órgão prevê blitze itinerantes e operações integradas da Lei Seca com foco em retirar de circulação condutores que colocam a vida de terceiros em risco. O capitão da Polícia Militar Antônio Neto, que atua na assessoria de comunicação executiva de trânsito, reforçou que as ações simultâneas em Salvador, Região Metropolitana e estradas do interior são respostas necessárias aos indicadores alarmantes do estado.
“70% dos sinistros hoje envolvem motociclistas e mais de 40% das mortes no trânsito também são desse público. Isso é um dado preocupante. Diariamente, já fazemos as fiscalizações, mas estamos intensificando para prevenir acidentes e tirar de circulação aqueles que ainda não entenderam a importância de se conscientizar e ter um comportamento seguro”, concluiu o capitão Antônio Neto.
Para o segmento que encara as duas rodas como filosofia de vida e união comunitária, a saída definitiva depende de uma mudança cultural que deve começar cedo. Roberto Sampaio, sócio de associação de motociclistas na Bahia, ressalta que as ações coordenadas em ambientes escolares são fundamentais para mudar a mentalidade das próximas gerações de condutores.
“Nós, motociclistas, visamos sempre o bem-estar da nossa comunidade, notamos sempre pela segurança do motociclista na estrada, na cidade, em todos os lugares. Acho importante essas ações nas escolas para mostrar à turma como é o motociclismo, para que serve o motociclismo e não usar como uma arma. E, sim, curtir o motociclismo que é bom demais”, finalizou Roberto Sampaio.
Fonte: BNews



