A aposentadoria não é sinônimo de descanso para Manoel Teixeira Alves, de 68 anos. Após mais de três décadas dedicadas à indústria, hoje ele atua como vendedor em uma loja de materiais de construção e afirma que a atividade é necessária para arcar com as despesas da casa.
“Minha esposa, meu filho e minha nora dependem de mim. Além disso, gosto de trabalhar e me sentir útil. Entra um cliente, entra outro e nem vejo o tempo passar enquanto estou na loja. Às vezes, é cansativo. Mas, tudo na vida a gente aprende”, revelou. Assim como ele, milhões de idosos atuam no mercado de trabalho, segundo o levantamento intitulado “Síntese de Indicadores Sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira 2025”.
O estudo divulgado nesta quarta-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a população idosa de 60 anos ou mais de idade cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões, entre 2012 e 2024, um aumento percentual de 53,3%. Além disso, o nível de ocupação desse grupo foi de 24,4%, sendo de 34,2% entre os homens e de 16,7% entre as mulheres; ou seja, cerca de uma a cada quatro pessoas idosas estavam ocupadas em 2024.
Conforme Denise Freire, analista do estudo, alguns fatores explicam a permanência das pessoas no mercado de trabalho por mais tempo. “O aumento da expectativa de vida e as mudanças ocorridas nos arranjos familiares nos últimos anos, somados à alta informalidade no mercado de trabalho brasileiro e à reforma ocorrida em 2019 no Sistema de Previdência Social”, elenca.
Para Maria Lúcia Chaves, de 61 anos, que atua como empacotadora em um supermercado na cidade de Itamonte, no interior de Minas Gerais, estar em atividade é uma forma de conviver com mais pessoas. “Eu nunca parei de trabalhar e espero não parar, enquanto estiver viva. Gosto muito da lida”, comentou.
Em 2024, entre 60 e 69 anos, quase metade dos homens (48,0%) e pouco mais de um quarto das mulheres (26,2%) estavam ocupados. Com 70 anos ou mais, 15,7% dos homens e 5,8% das mulheres ainda permaneciam ocupados no mercado de trabalho, ainda de acordo com o levantamento do IBGE.
Segundo Denise Freire, ao longo da série histórica da pesquisa, percebe-se que o percentual de idosos no mercado de trabalho cresceu. “Então houve a pandemia e teve uma queda expressiva no nível de ocupação, porque era um grupo que realmente precisava se proteger. Mas, passado o período mais crítico da pandemia, esse grupo tem retomado sua participação no mercado de trabalho, atingindo o maior percentual em 2024”, explicou.
Como explica a mentora de carreira e consultora de Recursos Humanos, Vanessa Cunha, a presença de idosos em postos de trabalho é cada vez mais visível e as empresas começam a entender que experiência e maturidade são ativos estratégicos, não exceções. “Em geral são profissionais muito comprometidos, pontuais, com forte senso de responsabilidade e alto repertório técnico e comportamental. Costumam ter boa capacidade de mediação de conflitos e leitura de contexto. O desafio maior costuma ser a adaptação às novas tecnologias — que acontece bem quando a empresa oferece apoio e respeito”, detalha.
Dentre as dicas para quem tem mais de 60 anos e está buscando oportunidade no mercado de trabalho, ou enfrentando desafios na atividade que desempenha, a especialista orienta buscar atualização constante, especialmente em tecnologia e na própria área de atuação. Além disso, Cunha recomenda: cuidar da saúde física e mental para sustentar o ritmo; fortalecer a rede de contatos e aprender a comunicar a própria trajetória em termos de resultados e contribuição, não de idade; e priorizar ambientes que valorizem respeito, inclusão e diálogo entre gerações.
Realidade na Bahia
Apesar de não terem sido disponibilizados dados específicos da Bahia, o estudo traz um panorama da Região Nordeste, na qual, em 2024, considerando o rendimento médio de todos os trabalhos, as pessoas ocupadas recebiam R$2.229, valor 69,5% do correspondente à média nacional. Maranhão (R$ 2.051) e Ceará (R$ 2.053) foram as unidades da federação com os menores rendimentos médios mensais; enquanto os maiores estavam no Distrito Federal (R$ 5.037) e São Paulo (R$ 3.884).
De acordo com Camila Leão Veloso, psicóloga e diretora de Felicidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos Seccional Bahia (ABRH Bahia), a presença de profissionais com mais de 60 anos tem crescido, assim como as discussões sobre longevidade e equipes multigeracionais. “Segundo o IBGE, quase 25% da força de trabalho da Bahia é composta por pessoas com 60 anos ou mais. Até 2030, a pirâmide etária deixará de existir como conhecemos, o que exige preparação desde já. Apesar de uma abertura maior para profissionais mais velhos em processos seletivos, o avanço ainda é tímido, em razão de preconceitos ligados à idade, como a ideia de baixa adaptação tecnológica ou desinteresse em investir em quem está próximo da aposentadoria. Por isso, é fundamental combater o etarismo e tratar a idade como fator de diversidade”, destaca.
A dirigente da ABRH Bahia cita ainda dados do Fórum Econômico Mundial, que indicam que 40% das competências exigidas hoje mudarão até 2030 e que 60% dos trabalhadores precisarão se requalificar. “Isso desafia as empresas a promoverem inclusão e capacitação nas áreas digitais, emocionais e sociais, especialmente para gerações que não tiveram acesso a essa formação ao longo da vida”, completa.
Outros aspectos são apontados como entraves enfrentados por essa população. “Os principais desafios envolvem saúde física e emocional, muitas vezes agravadas pela falta de prevenção ao longo da vida. Soma-se a isso a sobrecarga de múltiplos papéis familiares, característica da chamada “geração sanduíche”, que cuida de pais, filhos e netos”, relata Veloso.
Em contrapartida, a psicóloga também cita competências dos profissionais mais maduros, que representam uma vantagem perante os demais trabalhadores, como comprometimento, lealdade e senso de gratidão. Além disso, são traços marcantes desse público, segundo Veloso, “liderança, resiliência, pensamento analítico e influência social, além de maior estabilidade emocional e intenção de permanência, fatores que reduzem a rotatividade nas empresas”.
Fonte: Tribuna da Bahia



